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Hístoria do Cânhamo em Portugal

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Hístoria do Cânhamo em Portugal

Mensagem por WhitBud em Seg Jul 06, 2009 1:30 am

História em Portugal

Matéria Prima Nautica

No reinado D. Manuel 1495-1521 e de D. João III 1521-1557 estabeleceram-se em território nacional plantações de cânhamo para sua posterior transformação e fabricação de massame, amarras, cordame e aparelhagem das frotas marítimas, nas localidades, regiões, escolhidas pela sua capacidade, excelência para a produção de cânhamo (que exige bons solos, senão as melhores parcelas) controlando a produção impondo ditames aos lavradores e a sua referida transformação em regime de Monopólio estatal. “No ano de 1513 D. Manuel mandou a África uma poderosa armada de 400 navios, comandada pelo Duque de Bragança, D. Jayme, com a qual tomou Azamor, Tite e Almedina, na Mauritânia, composta por 16 000 infantes, 2500 cavalos, além de marinharia, aprestando a nossa armada em apenas 4 meses e meio.”

O Cardeal Saraiva, patriarca de Lisboa, em 1875, retoma os argumentos de Damião de Góis, escrevendo: “E se alguém porventura se admirar, de que tantas, e tamanhas armadas se equipassem, e aprestassem tão frequentemente, e às vezes com tanta celeridade, deve attender: 1º Que el-Rei D. Manoel tinha em vários lugares do reino feitorias para a fabricação de amarras, enxárcias, cordoalhas, de canhamo que então se cultivava, em grande abundância em Portugal. 2º Que tinha também grande fundição de artilharias (…).”

No reinado de Filipe II, somos informados, no contexto da ameaça turca à cidade de Veneza, que “Em Abril, o turco encomendou enormes quantidades de linho e de cânhamo à Transilvânia. Para quê, senão para o velame e as cordas da futura armada? Este exemplo revela a importância do cânhamo para as armadas.


Espírito de D João IV

Em 29 de Agosto de 1656, ano da morte de D. João IV, é impresso e publicado em Lisboa, pelo impressor régio António Álvares o:

“Regimento que S. Magestade manda que aja na feitoria do linho cânhamo da Villa de Moncorvo, para que os oficiaes della saibão a obrigação, que deuem guardar.”

Este documento incluía toda uma série de rigorosos regulamentos de forma a aumentar, garantir e fiscalizar a produção e o cultivo dos linhos, pois: “Durante a administração do Rei D. João IV, logo depois da restauração da independência, houve necessidade de reequipar o país e de recuperar os transportes marítimos para manter e intensificar a ligação com as costas de África e sobretudo com o Brasil. (sabendo-se que) (…) A enxárcia, as cordas e o velame exigiam uma renovação permanente para o bom funcionamento e para a segurança dos navios.” 2

O Regimento datado de 1656 exemplifica sem rival a atenção e preocupação dos governantes portugueses da época em relação ao cultivo do Linho Cânhamo uma vez que o braço régio se estende a uma actividade ancestral na região; de facto a Feitoria de Torre de Moncorvo é anterior à Restauração, datando a sua construção de 1617, no Campo da Corredoura (hoje Largo da Corredoura3, sendo este topónimo uma derivação etimológica de cordoaria) durante a dinastia filipina.

A planta chegou clandestinamente com os escravos à América do Sul no tempo de D. João IV; finalmente por volta de 1770 o cânhamo é introduzido e ensaiado nas localidades brasileiras de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. 4 Em terras brasileiras a implantação do cânhamo irá ser alvo de um igual apertado controlo estatal através da recriação do esquema de Feitorias Régias como a Feitoria de São Leopoldo, (…) onde o governo português continuava a insistir no cultivo do cânhamo (…)5 e alvo da atenção dos editores e impressores da época, como se atesta na “Collecção de Memórias Inglesas sobre a cultura e comercio do Linho Canamo tiradas de differentes authores, Que devem entrar no quinto tomo do Fazendeiro da Brazil, Traduzidas de ordem de sua Alteza Real O Príncipe do Brazil Nosso Senhor e publicadas por Fr. José Mariano da Conceição Velloso. Lisboa anno MDCCXCIX.”

“Em 1740 havia na Torre de Moncorvo feitoria, e armazém de linhos, e canhamos, que se criavão nos campos de Villariça, fecundados pelas inundações do douro: e he esta (dizia hum escriptor desse tempo) a cultura de maior importância do reino, para o apresto das armadas por ter o uso qualificado a sua bondade, e fortaleza. Nesses annos se colhião ainda cousa de 160:000 arrateis (5:000 arrobas) de linho, e se se encanassem as aguas (dizia o mesmo escriptor), que muitas vezes alagão, e destroem os linhos semeados, maior fora o lucro da província, e do reino.”
Esta Feitoria trabalhou, com maiores ou menores oscilações financeiras até finais do século XVIII, quando a vigência oficial da Feitoria terminou com a publicação do Alvará de 25 de Fevereiro de 1771, pelo Marquês de Pombal em que determina a Extinção das Feitorias do Linho Cânhamo.

Durante o século XX, antes da introdução do petróleo e seus derivados o cânhamo funcionou como a matéria-prima base de todas as manufacturas, vestia o humilde camponês e fardou o Corpo Expedicionário Português que participou na 1ª Guerra Mundial ao lado dos Aliados.

Cânhamo e o Porto
A cidade do Porto e o Rio Douro, funcionavam como canal de escoamento a partir de Torre de Moncorvo das toneladas de linho cânhamo produzidos nessa região.

De facto, “Em 1780, Rebelo da Costa cita como exemplo de uma grande «fábrica», a Fábrica da Cordoaria de Linho e Cânhamo do Porto cuja produção permitia dispensar a Cordoaria Inglesa e que possuia cerca de 300 operários;”Eftá fituada em hum largo, e comprido Campo chamado a Cordoaria nova, que facêa da parte do nafcente com o Recolhimento do Anjo (…) Chama-fe a efte sitio a Cordoaria nova, porque o feu primeiro eftabelecimento foi ao pé da Igreja de S. Pedro de Miragaya, aonde há huma rua, que ainda conferva o nome de Cordoaria Velha. (…) O volume de todo o linho, que se gafta cada anno nas obras de fio, cordagens, cabos paffa de oito mil quintaes.”

Com esta descrição em português arcaico ficamos a saber da existência de uma grande fábrica/cordoaria que existia no Porto, para transformação de cânhamo.

Toponomia

Olhando a cultura do linho cânhamo à luz da toponímia, vemos que as
designações de localidades com origem no vocábulo cânhamo correm ao longo da
linha do douro, ou seja lugares de passagem e de cultivo do cânhamo. “Em
latim há cannabis, que tem a par cannabus e cannabum. De cannabis veio
directamente canabe; a cánabe corresponde cánave, representado na língua
comum por alcáneve (= al-cáneve) e no onomástico em Canavais. a forma cánamo
resultou do cruzamento de cannabis+calamus, e está representado
toponimicamente em Canameiro; o mesmo cruzamento explica o hesp. cáñamo,
d’onde veio o português e actual cânhamo.”
De forma mais sucinta um autor contemporâneo afirma que “Cânhamo: é a forma
literária predominante do século XVI em diante, veio de Castela seguramente
com artefactos de cânhamo galego. Derivados são Canhamiça (= palha de
cânhamo) e canhamaço. «cannabaceus; por dissimilação calhamaço»”.
Além destas derivações, o vocábulo CÂNAVE do latim CANNABIS, botan. cannabis
sativa L, dá origem a um considerável número de topónimos que marcam a
geografia humana de Portugal, persistindo até aos nossos dias como herança
de uma cultura outrora extremamente presente, passíveis de ainda se
encontrar sob a forma de:

CAÑAMO: o mesmo que cânhamo
CÂNAVE: o mesmo que cânhamo
CANAVEADO: cfr acanaveado; como canavear e acanavear
CANAVEAR: plantar cânaves; vid acanavear
CANAVEIRA: lugar onde há o cânave
CANAVÊS: plantação de cânave
CÂNEVE: forma popular de cânave, Aug. Mor
CANAVESES: plural de canavês
CANAVESINHOS: plural e diminutivo de canavês
CANAMEIRO: campo ou plantação de Cânhamo; terra semeada de linho
canimo. Instrumento sobre a Fabrica de Linho Canimo de 1627, Documento
de Torre de Moncorvo
CANHAMAÇO: assim chamavam à estopa grossa do Linho Galego e ao
pano ordinário do Linho Cânhamo, ou tecido grosseiro de fio de cânhamo ou
de estopa
CALHAMAÇO: Do cânhamo + sufixo aço, a significar estopa ou fio de cânhamo ou
tecido grosseiro feito com essa estopa

Fontes:

CHAVES, Luis, A Cana: vocabulário, Usos e Costumes, Separata da Revista
Portuguesa de Fililogia, Volume X, Coimbra, 1960, p 102-146
MACHADO, José Pedro, Diccionário Etimológico da língua Portuguesa com a mais
antiga documentação escrita e conhecida de muitos vocábulos estudados, 3ª
Edição, segundo Volume C-E, Livros Horizonte, Lisboa, 1977, p54
VASCONCELLOS, J. Leite de, Etnografia Portuguesa, Tentame de Sistematização,
Volume II, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1985, p92
VITERBO, Fr, Joaquim de Santa Rosa, “Elucidário das palavras, termos e
frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se
ignoram”, Edição crítica por Mário Fiúza,II B-Z Livraria Civilização,
Porto-Lisboa, 1966, p 66

Fumicios no Porto

Desde 2001, ano em que o perigo do consumo de cannabis “baixou” a malta portuense começou a dar os primeiros passos nos “fumícios”, quando ainda se lia a “cañamo” e não a “cânhamo”,e quando apenas era vendida na tabacaria/papelaria por detrás da Biblioteca Municipal em São Lázaro.

O primeiro fumício teve a mão de estudantes das Belas, que lá pelo ano de 2002 juntaram os “fumadores” na Praça dos Poveiros durante uma tarde, com idas e vindas até à faculdade. Em julho de 2003 também consta que se divulgou um outro, que não teve adesão, no Jardim da Cordoaria, em frente ao Tribunal da Relação.

Estas tímidas demonstrações de uma reivindicação contemporânea, foram o despertar de uma vontade em assumir os consumos individuais e exigir o seu respeito, como liberdade de escolha individual.

Fumício de Lagos

Muitos conhecem a história de Bernd Gutbub, o alemão de Odeceixe que foi preso pela posse de plantas de cannabis que cultivava na sua horta biológica …outros não: nada de novo no contexto da repressão policial que se mantém em Portugal aos consumidores / cultivadores de marijuana.
A grande diferença é que Bernd foi detido na companhia do seu filho menor de 17 anos, apesar de ter assumido peremptoriamente a posse das plantas. Novo ingrediente adiciona-se ainda a esta receita tão conhecida, o facto de Bernd Gutbub ter sido um dos organizadores do grande fumício que teve lugar em Lagos no verão de 2001, sendo a sua posterior detenção uma clara perseguição a um assumido activista pró-legalização da cannabis, que caso não tivesse levantado “ondas” provavelmente não teria sido encarcerado.

Fonte: MgmPorto
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WhitBud

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Re: Hístoria do Cânhamo em Portugal

Mensagem por mortalha em Qui Jul 09, 2009 11:42 am

Isto dos fumícios parece-me bem... bute organizar um?

mortalha

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Re: Hístoria do Cânhamo em Portugal

Mensagem por jonas84 em Qui Jul 09, 2009 8:52 pm

mortalha escreveu:Isto dos fumícios parece-me bem... bute organizar um?

Não me parece ma ideia.. quando tivermos uma pequena comunidade formada falamos melhor sobre isso.
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Re: Hístoria do Cânhamo em Portugal

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